PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O GRITO MAIS TRÁGICO QUE MARCOU O OCIDENTE

Margarida Azevedo
Portugal



“Sendo Jesus o espírito tão elevado como se diz e como o espiritismo defende, como se explica, sabendo que ele vinha em missão especial à Terra, o momento em que ele diz:

Pai, pai porque me abandonaste.” (Sl 22:1; Mt 27:46; Mc 15: 34. - Pergunta feita a dirigente espírita).
A humanidade de Jesus, e a articulação com a sua superioridade espiritual, é das coisas mais difíceis de compreender. Talvez porque, à partida, a problemática esteja mal formulada, isto é, há quem separe o corpóreo do espiritual. Ora eles são inseparáveis. O físico é caminho directo para o espiritual, não numa situação opositiva, mas em estreita relação de contiguidade.

Mesmo para os que defendem que Jesus é Deus, vir à carne é dar testemunho de que o humano é capaz de Deus e que Deus se revela no humano. Um deus que não se revele é um total desconhecido, e parece que Deus não quer isso. Deus e Homem é um binómio existencial cujo fim consiste em dar um sentido à vida.

A morte de Jesus na cruz inaugura uma profunda intensidade dramática. Não é uma questão de fé, mas de vulnerabilidade. Esta tragédia não leva à cena a problemática da fé, dos seus fracassos e virtudes, do desespero e das recaídas constantes face ao saber se Deus de facto existe ou não. A personagem principal é a vulnerabilidade, o lado fraco e débil do muito humano. Jesus não pôde impor-se à vulnerabilidade porque o humano sem a vulnerabilidade não é humano. Se Jesus, ao vir ao mundo, não vivesse como nós, seria uma caricatura e a cruz abdicaria deste versículo.

 “Pai, pai porque me abandonaste?`` é o maior grito de humanidade que Jesus pôde dar. É o mesmo que dizer: “Onde Te meteste no momento em que mais preciso de Ti?” Jesus entrou até ao fim nas nossas limitações, experimentou as nossas fraquezas, dando testemunho de que o fraco é muito forte na medida em que aceite a sua mesma fraqueza. O móbil da Cruz foi o Amor incondicional pela humanidade, os fracos.

Mas também podemos perguntar: Deus não está ausente nesta morte? ou, como é que Deus está presente num crucificado? Que sentido tem esta morte? O sentido deste versículo inaugura o trágico e o vulnerável como elementos cristológicos, os quais deixam de ser uma questão helénica, filosófica, e passam a fazer parte da teologia, da reflexão sobre Deus. Com Jesus, a vulnerabilidade sobe ao estatuto de caminho directo para Deus. A Cruz é libertadora.

Assim, neste versículo, o forte e o fraco confundem-se, o sem sentido (um crucificado) é criador de outro sentido: o paradoxo da cruz, a ignomínia torna-se processo libertador. A vida explica-se pela morte e a morte confere sentido à vida. Jesus é co-protagonista connosco desse sem sentido. A força está na fraqueza, mas o contrário também se verifica.

O versículo não aponta para a missão de profeta, a sua superioridade face a nós. Pelo contrário, representa-o no expoente máximo da capacidade de amar na medida em que a vulnerabilidade se torna a sua/nossa força.

“Pai, pai porque me abandonaste”, não é uma revolta, mas a representação fiel de que estamos sós na maior experiência-limite da  nossa existência, experiência única e intransmissível, individual, lembrando-nos de que pode ser o nosso apelo quando chegar a nossa vez de partir. Somos vulneráveis até à morte, mas não é por isso que somos afectados na nossa fé.

Mas outra perspectiva se impõe, e muito válida, no entanto herética para cristãos mais radicais. Na observação judaica, o versículo nada tem de extraordinário na medida em que a noção de profeta não encerra, só por si, uma superioridade religiosa ou espiritual. Deus serve-se de quem quer e porque quer e não dá satisfação a ninguém. Os profetas do Antigo Israel são em tudo iguais a nós, com as mesmas preocupações, os mesmos fracassos; jamais estiveram fora do mundo. Foi a mundaneidade que os tornou servos do Deus único. Foi  por serem como nós que se impuseram a nós; o humano conferiu-lhes a autoridade necessária para nos fazerem reflectir sobre os nossos maus pendores. O profeta não é, assim, aquele que está longe, nem o que está mais perto de nós. Mais, ele é um de nós. Jesus não escapou a esta perspectiva (ser considerado ou não messias, isso já é outra coisa, embora contígua a esta problemática).

Nesta sequência, podemos ainda remeter o versículo para o Salmo 22. O salmista faz desses versos espectaculares não uma alusão à ausência de Deus em nós, mas à presença do vulnerável, fazendo da fraqueza um despertar de consciência. Eis uma definição de morte, a saber, o despertar para outra consciência. Assim, o salmo apresenta o sofrimento num misto de: experiência da fraqueza e do desespero; certeza de que Deus ouve esse grito dilacerante; a noção de que a presença de Deus em nós nem sempre é clara, ou pelo menos dá ares de estar oculta; a inauguração de outros conceitos mediante outros sentidos, que só da morte são pertença. Porque me abandonaste, em Jesus, acresce-se do abandono, por parte de quem era suposto estar firme até ao fim. Os Doze tresmalharam-se, tomados pelo medo. Isto prova que não perceberam a  sua pregação, não compreenderam a dimensão existencial de Jesus.

Outro aspecto ainda, um profeta não é um mágico. A troça de que, já que era rei podia salvar-se a si mesmo, faz emergir a questão de quantas vezes temos à nossa frente alguém que nos pode ajudar, dar um parecer assertivo sobre uma atitude nossa menos coerente e nós não o detectamos, tão simplesmente porque vivemos ou estamos demasiado apressados. Quantas vezes Deus nos destaca um anjo de carne e osso e nós sacudimo-lo porque amarrados a conceitos e preconceitos sem sentido! Não é um processo mágico o que nos liberta, mas a fidelidade a uma presença incondicional toda amor.

Pai, pai porque me abandonaste?”, não é a profecia da adivinhação, mas o grito do acerto entre o trágico e a vulnerabilidade. É a consciência de uma nova tragédia em que o coro é a humanidade inteira. 


Citada:

Bíblia, trad. de Frederico Lourenço, vol 1, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos, Evangelho Segundo S. Mateus,Quetzal, Lisboa, 2016, p. 92.

Cadernos Bíblicos, Etienne Charpentier, Cristo Ressuscitou, Difusora Bíblica, Lisboa, 1981, n.º6, p.64.

Consultada:

Cadernos Bíblicos n.ºs 1 (1979); 2 (2004); 7/8 (1981); 11 (1994), Difusora Bíblica, Lisboa.

S.j., James Martin, Jesus, Um Encontro Passo a Passo, Paulinas Editora, Prior Velho, Gólgota, pp.418-425.