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UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

A perseverança de Fernández Colavida na divulgação do espiritismo na Espanha (*)

A perseverança de Fernández Colavida na divulgação do espiritismo na Espanha  (*)
Simoni Privato Goidanich

A escassez de material de estudo e de divulgação do espiritismo era uma limitação importante na Espanha. Para amenizá-la, um dedicado espírita em Barcelona chamado José María Fernández Colavida decidiu importar uma grande quantidade de livros e jornais espíritas da França. Para isso, contou com a colaboração de Maurice Lachâtre, escritor e editor francês, que, naquela ocasião, também residia em Barcelona.
Lachâtre foi, pois, um intermediário na importação. Era Fernández Colavida o destinatário dessas obras, segundo os relatos de Amalia Domingo Soler, Miguel Vives y Vives, Bernardo Ramón Ferrer, bem como dos jornais espanhóis Luz y Unión e El Diluvio, analisados na pesquisa que realizamos e publicamos, em 2013, no livroDivulgación del Espiritismo: enseñanzas del ejemplo de José María Fernández Colavida.
A importação cumpriu com os requisitos legais. Contudo, por ordem do bispo de Barcelona, Antonio Palau y Térmens, as obras importadas foram queimadas, no dia 9 de outubro de 1861, por um sacerdote com o auxílio de funcionários da alfândega, na Cidadela de Barcelona – o mesmo lugar onde eram executados os criminosos. O episódio ficou conhecido como o Auto de Fé de Barcelona.
Muito mais que um fato histórico, o Auto de Fé de Barcelona é um símbolo dos ataques que o espiritismo, na pessoa dos trabalhadores espíritas, especialmente os que se dedicam à divulgação, podem sofrer.
Diante de uma prova de fogo, várias reações são possíveis.
Uma delas é o desânimo, que nem sempre necessita de uma fogueira para instalar-se.  Às vezes, basta um fogo de palha para consumir o entusiasmo no trabalho no bem.
Outra reação é a rebeldia, o contra-ataque, que desperdiça valiosos recursos que deveriam ser destinados ao trabalho edificante e envolve em trevas o trabalhador que teria como tarefa difundir a luz.
Também é possível o medo, que pode produzir a paralisação das tarefas, a fuga das responsabilidades e até a deserção com relação ao espiritismo.
No entanto, Fernández Colavida não teve essas reações.
Ele não se desanimou com o Auto de Fé de Barcelona, mas se sentiu estimulado. Tornou-se o primeiro tradutor para o espanhol das obras de Allan Kardec. Passou a publicá-las na Espanha e a divulgá-las naquele país e em muitos outros, sobretudo da América. Também fundou um jornal espírita de alcance internacional. Ficou conhecido como o "Kardec espanhol" por ser o maior líder e divulgador do espiritismo em língua castelhana.
Com relação aos agressores, a resposta de Fernández Colavida foi o perdão e a reconciliação. Nove meses após o Auto de Fé de Barcelona, o bispo Antonio Palau faleceu e, pouco depois, se manifestou em Espírito, arrependido, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e no centro espírita dirigido por Fernández Colavida. Desde então, o Espírito de Antonio Palau passou a trabalhar com o "Kardec espanhol" na divulgação do espiritismo. Também anunciou que a Cidadela, onde haviam sido queimadas as obras espíritas, seria transformada em um jardim, o que ocorreu poucos anos depois.
Fernández Colavida sabia que os ataques não devem ser temidos. A agressividade mediante a qual se manifestam, em lugar de ser uma demonstração de força, é, na verdade, uma confissão de debilidade, de impotência, diante do espiritismo e de todos aqueles que lhe são fiéis. Jamais poderão aniquilar nem o espiritismo nem os espíritas. De fato, o Auto de Fé de Barcelona, cuja finalidade era reprimir o espiritismo, teve uma repercussão tão intensa na população, nos meios de imprensa e até nas altas esferas do governo que serviu para divulgá-lo amplamente.
Em suma, o Auto de Fé de Barcelona e o exemplo do "Kardec espanhol" proporcionam ensinamentos muito úteis para enfrentar os desafios no trabalho espírita.

(Simoni Privato é diplomata e pesquisadora brasileira, residente em Montevidéu, no Uruguai.)

(*) Artigo publicado no jornal Correio Fraterno -  edição 484 - novembro/dezembro 2018