PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

terça-feira, 28 de junho de 2016

MÉDIUM, CO-AUTOR?



Leonardo Paixão (*)
 
"Qualquer que seja a natureza dos médiuns escreventes, quer mecânicos ou semimecânicos, quer simplesmente intuitivos, não variam essencialmente os nossos processos de comunicação com eles. De fato, nós nos comunicamos com os Espíritos encarnados dos médiuns, da mesma forma que com os Espíritos propriamente ditos, tão-só pela irradiação do nosso pensamento" - (KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, Cap. XIX, item 225, Dissertação do Espírito Erasto).
 
Conforme o trecho que pusemos acima, da dissertação do Espírito Erasto, vê-se claramente que o pensamento é o meio de comunicação dos Espíritos com os médiuns e que, independente da classificação da mediunidade, o pensamento irradiado dos Espíritos é o que os médiuns percebem. Fica aí uma pergunta: Como apenas pelo pensamento pode o médium filtrar estilos diversos, não seria o caso de ele escrever e/ou falar com o seu próprio estilo, o seu próprio modo de ser? Para responder a esta questão, leiamos o que em sua dissertação expõe o Espírito Erasto em um outro trecho:
 
"Com um médium, cuja inteligência atual, ou anterior, se ache desenvolvida, o nosso pensamento se comunica instantaneamente de Espírito a Espírito, por uma faculdade peculiar à essência mesma do Espírito. Nesse caso, encontramos no cérebro do médium os elementos próprios a dar ao nosso pensamento a vestidura da palavra que lhe corresponda e isto quer o médium seja intuitivo, quer semimecânico, ou inteiramente mecânico. Essa a razão por que, seja qual for a diversidade dos Espíritos que se comunicam com um  médium, os ditados que este obtém, embora procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal" (Grifo nosso - KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, Cap. XIX, item 225, Dissertação do Espírito Erasto).
 
Aí está a resposta de que, mesmo que se tenham sob as vistas comunicações de estilos diversos, poderá nelas se observar traços da personalidade do médium. Um excelente exemplo quanto a isso são as cartas familiares recebidas pelo médium Chico Xavier, muitos críticos observam que em muitas destas comunicações, os comunicantes, em especial os filhos, escrevem as expressões: "Querida mãezinha", "Mãezinha de meu coração", "Mãezinha", "Querida Mamãe", e ficam a questionar a veracidade das comunicações, esquecendo-se de observar o conjunto e não se prender apenas a uma expressão. Estas expressões nas cartas psicografadas pelo saudoso médium de Uberaba, mostram o traço da personalidade do Chico, o seu sentimento de amor em relação às mães e, assim, em geral, ele inicia as cartas dos filhos para suas mães, podemos ler na centena de livros de cartas familiares que através de suas mãos nos foi legado que as cartas trazem estas expressões, porém, há algo a também ser observado, é que através de outros médiuns, como o Eurícledes Formiga e o Júlio Cézar Grandi Ribeiro (Julinho), ambos também já desencarnados, os filhos comunicantes também usam destas expressões, o que nos conduz a pensar que, ainda que aí esteja um colorido, um traço da personalidade do médium, aí está também o amor, o carinho, a emoção dos Espíritos em contato com os seus entes caros. O que há na comunicação mediúnica fiel ao pensamento do Espírito é a reciprocidade de sentimentos e emoções entre médium e Espírito e, assim, o médium ao colocar no papel ou ao falar, visualizar, ouvir, interpretará com o seu vocabulário as ideias, sentimentos e emoções que o Espírito transmite, ele vestirá a percepção que está tendo com palavras e estas virão de forma tal a reproduzir o estilo do Espírito comunicante.
 
Em relação às comunicações estritamente instrutivas (falamos estritamente instrutivas, pois as cartas familiares também trazem instruções, basta ter 'olhos de ver'), perceberemos a necessidade de os médiuns estarem constantemente estudando e o porquê de os Espíritos sempre insistirem nisto. Ouçamos o Espírito Erasto, ainda:
 
"Por isso é que gostamos de achar médiuns bem adestrados, bem aparelhados, munidos de materiais prontos a serem utilizados, numa palavra: bons instrumentos, porque então o nosso períspirito, atuando sobre o daquele a quem mediunizamos, nada mais tem que fazer senão impulsionar a mão que nos serve de lapiseira, ou caneta, enquanto que, com os médiuns insuficientes, somos obrigados a um trabalho análogo ao que temos, quando nos comunicamos mediante pancadas, isto é, formando, letra por letra, palavra por palavra, cada uma das frases que traduzem os pensamentos que vos queiramos transmitir.
É por estas razões que de preferência nos dirigimos, para a divulgação do Espiritismo e para o desenvolvimento das faculdades mediúnicas escreventes, às classes cultas e instruídas, embora seja nessas classes que se encontram os indivíduos mais incrédulos, mais rebeldes e mais imorais. É que, assim como deixamos hoje, aos Espíritos galhofeiros e pouco adiantados, o exercício das comunicações tangíveis, de pancadas e transportes, assim também os homens pouco sérios preferem o espetáculo dos fenômenos que lhes afetam os olhos ou os ouvidos, aos fenômenos puramente espirituais, puramente psicológicos" (Idem, ibidem).
 
Com um médium que ofereça material em seus arquivos mnemônicos, os Espíritos apenas precisam dar um  impulso e, então, a ideia, o assunto que eles querem expressar começa a fluir, não é raro que médiuns experientes, particularmente no setor da psicografia, digam que o pensamento lhes corre célere, de um jato e mais que depressa eles o colocam no papel.
 
Vejamos o que nos diz o Espírito Emmanuel a respeito de sintonia mediúnica:
 
"Para cooperar na mediunidade, a serviço do bem, não deves esperar que os instrutores desencarnados te impulsionem as peças orgânicas, como se fosses um fardo movido a guindaste.
No reino da alma, o trabalhador, conquanto precise de inspiração, não pode considerar-se mola inerte.
Indiscutivelmente, o mecanismo espontâneo é nota destacada e importante, à feição de novidade para a convicção; contudo, as edificações do sentimento e da ideia exigem vigilância da consciência.
Por isso mesmo, em qualquer condição da força medianímica, podes colaborar com as Inteligências superiores, domiciliadas na Vida Maior, em favor do progresso humano.
(***)
Em toda parte, pensas e fazes algo sob a influência de alguém.
E, entendendo que todos nos encontramos consideravelmente distantes do bem verdadeiro, não percas tempo perguntando se o bom pensamento te pertence à cabeça.
Recorda, acima de tudo, que o bem puro verte essencialmente de Deus e que os mensageiros de Deus tomar-te-ão sob a tutela do amor, se te dispões a servir" (XAVIER, Francisco C. Seara dos Médiuns. 2ª edição. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira., 1961. pp. 171 e 172).
 
Feitos estes esclarecimentos, a pergunta ao título deste artigo só pode ser afirmativa, pois, apesar de se colocar que o trabalho do médium é todo mecânico, sem o material de que se precisa, os Espíritos ficam impossibilitados de se comunicar.
 
O Espírito Emmanuel, digno instrutor espiritual, através da mediunidade abençoada de Chico Xavier, em prefácio ao livro Caminheiro, do Espírito Eurícledes Formiga, psicografia de Carlos Antônio Baccelli, no ano de 1989, já nos responde a esta questão ao dizer no segundo parágrafo de seu prefácio: "Tanto o Autor quanto o co-Autor são suficientemente conhecidos para que lhes façamos a apresentação" (grifo nosso). Precisamos estudar os prefácios de Emmanuel com atenção, pois neles há instruções e revelações que nos dão desdobramentos das instruções dadas a Allan Kardec.
 
Encerramos com estas sábias palavras de Emmanuel:
 
"Não há desenvolvimento mediúnico, para realizações sólidas, sem o aprimoramento da individualidade mediúnica.
No caso da terra, o lavrador será mordomo vigilante.
No caso da mediunidade, o médium será o zelador incansável de si mesmo.
E médium algum se esqueça de que é na terra boa abandonada que a praga e a serpente, o espinheiro e a tiririca proliferam mais e melhor" (XAVIER, Francisco C. Seara dos Médiuns. 2ª edição. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira., 1961. p. 132).
 
(*) Leonardo Paixão é trabalhador espírita em Campos dos Goytacazes, RJ, colaborando com amigos de ideal no Grupo Espírita Semeadores da Paz.