PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

“BRASIL, CORAÇÃO DO MUNDO, PÁTRIA DO EVANGELHO”: UMA ANÁLISE CRÍTICA – PARTE I


LEONARDO MARMO MOREIRA
  

Introdução
1.    “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”
                “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” é um dos livros mais divulgados do Movimento Espírita Brasileiro e, interessantemente, também um dos mais polêmicos.
                Tendo para nós Francisco Cândido Xavier como o maior médium de todos os tempos, com especial destaque para a sua atividade psicográfica, a qual já nos legou quase 500 livros, e considerando sua altíssima qualidade doutrinária, sempre nos causou curiosidade as conhecidas e já antigas polêmicas dentro do Movimento Espírita a respeito de uma das suas mais vendidas obras que é “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Nenhuma outra obra de Chico Xavier, dentro de sua prolífica e profícua produção mediúnica, têm gerado polêmica doutrinária como essa.
                Percebemos, no entanto, que muitos dos debates envolvendo “Brasil, coração...” são confusos, misturando em suas respectivas análises, a ideia básica inserta no título do livro, concernente à missão espiritual do povo brasileiro, com o conteúdo do livro propriamente dito. Outras análises também são restritas, única e exclusivamente, à credibilidade de nomes, seja dos personagens insertos no corpo do texto, seja daqueles que tiveram participação na elaboração da obra. A nosso ver, nenhuma das abordagens supracitadas estaria de acordo com o esforço de análise do conteúdo da mensagem preconizado tão enfaticamente na “Codificação Espírita” por Allan Kardec.
                Mesmo dentro de significativas controvérsias, essa obra, que está completando 77 anos da publicação de sua primeira edição, permanece pouco estudada, embora, paradoxalmente, seja contínua, ampla e intensamente divulgada por todos os meios acessíveis.
                 É importante estimular não só a leitura mas o estudo das obras espíritas, mesmo aquelas mais tradicionais. Se uma das preocupações fundamentais dos dirigentes de “Centros Espíritas” é orientar jovens e neófitos com segurança doutrinária, é importante que uma das obras mais difundidas do movimento espírita seja estudada profundamente com base na Doutrina Espírita.
                A obra “Brasil, coração...”, embora muito divulgada, ainda não possui um estudo sistemático de todos os seus trinta capítulos, em termos simples e baseados nas obras da Codificação. Um estudo desse tipo seria um excelente exemplo de análise doutrinária que sempre deve ser feito com todas as obras espíritas.
                Com o objetivo, única e exclusivamente, de contribuir para o estudo de obra tão importante dentro do contexto do movimento espírita, é que submetemos nossa singela contribuição aos confrades que eventualmente demonstrem interesse em conhecer nossa análise. Certos de que esse pequeno esforço consiste em avaliação que deve ser prática comum em nossas leituras doutrinárias, estamos à disposição dos amigos leitores para a troca de ideias, sem a qual jamais construiremos, efetivamente, a “fé inabalável”, conforme conceituação da “Codificação Kardequiana”, em condições de “enfrentar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade”.
                O próprio Santo Agostinho tem oportunidade de afirmar em “O Livro dos Médiuns” (capítulo XXI – “Dissertações Espíritas” (Item XVI)): “Aprendei a distinguir o joio do trigo. Semeai apenas o trigo e evitai espalhar o joio, porque este impedirá que o trigo germine e sereis responsáveis por todo o mal que decorrer disso. Assim, sereis responsáveis pelas doutrinas errôneas que divulgardes” [Kardec, 1973].

2.      O Movimento Espírita nos dias atuais e no futuro
                O Movimento Espírita vive atualmente um momento decisivo em seu desenvolvimento histórico, tanto em nível nacional como em uma esfera mundial. Muito do preconceito contra o Espiritismo e os espíritas foi substancialmente diminuído. Testemunhamos representativa atenuação dos ataques que o Movimento Espírita e os espíritas costumam sofrer desde o tempo de Allan Kardec, graças a uma compreensão mínima, por parte da sociedade, em relação aos ideais doutrinários e às atividades do Centro Espírita e/ou do Movimento Espírita. Neste contexto, pode-se destacar a significativa obra de assistência social desenvolvida pelos centros espíritas e o exemplo de cidadania digna que muitos espíritas forneceram, com destaque para Chico Xavier, e continuam fornecendo através de existências de alta significação do ponto de vista espiritual.
                O respeito social conquistado pelo movimento espírita e pelos espíritas em geral tem sido considerado um dos fatores propiciadores do aumento de número de adeptos da Doutrina Espírita no Brasil e no Mundo.
                Obviamente, esse aumento de adeptos é, em princípio, um fato muito positivo, pois significa, entre outras coisas, que maior número de pessoas tem tido acesso à mensagem libertadora proporcionada pelo Espiritismo, “o consolador prometido por Jesus”.
                No entanto, tal crescimento quantitativo do Movimento Espírita, tanto do número de adeptos como do número de instituições espíritas, também representa um contexto profundamente desafiador para todos àqueles que possuem maior nível de compromisso com o ideal espírita, incluindo diferentes tipos de trabalhadores, tais como dirigentes de centros espíritas, estudiosos, redatores, palestrantes, médiuns etc.
                O aumento numérico de adeptos e de centros espíritas, associados a um intenso aumento da publicação de obras tidas como espíritas, que podem apresentar conteúdo doutrinário bastante questionável, algumas das quais muitas vezes com o status de “best-sellers”, têm preocupado muitos espíritas conscientes de suas responsabilidades com relação ao trabalho doutrinário, com a responsabilidade que o Espírito Santo Agostinho menciona no comentário transcrito no tópico anterior. Portanto, aparentemente, o aumento do número de adeptos está significativamente associado a neófitos com conhecimento ainda superficial a respeito do Espiritismo. Assim sendo, o Centro Espírita, como principal célula do “Movimento Espírita”, tem uma responsabilidade capital no processo de educação espírita de qualidade assim como cada espírita militante tem que procurar fornecer sua contribuição para que a “Luz da Verdade”, que por acréscimo de misericórdia possa tê-lo beneficiado, também possa chegar a outros irmãos, sendo, se possível, igualmente conservada para as futuras gerações das décadas que virão.
                Não podemos olvidar a necessidade de estimular a análise crítica do conteúdo de toda mensagem espírita, conforme aprendemos na Codificação Kardequiana, seja ela veiculada oralmente, em livros convencionais, ou através das mídias eletrônicas, tão em voga atualmente e que serão, sem dúvida, meios de estudos doutrinários cada vez mais intensivos no futuro.
                O fato é que o Movimento Espírita deve ser sempre consolidado sobre as bases de significativo conhecimento doutrinário ao invés da Doutrina Espírita ser “adaptada” pelos “modismos” do Movimento. O problema não é o direito das pessoas em crer nos conceitos espiritualistas com os quais tem afinidade. O problema é fazer passá-los como espíritas, quando não são. Se esse direcionamento verdadeiramente doutrinário não acontecer, a “Casa Espírita” e toda atividade espírita começará a ser apresentada “à moda da Casa”, como alguns confrades costumam comentar (e como, em alguns casos, já vem acontecendo) e a descaracterização doutrinária pode, lenta, gradual, porém sistematicamente, consolidar-se de tal forma que os confrades do futuro terão muitas dificuldades para recuperar a chamada “simplicidade evangélica” e a coerência doutrinária, à luz do pensamento kardequiano, que devem ser sempre as diretrizes de segurança para o desenvolvimento de atividades espíritas.
                Ao lembrar de Léon Denis, logo no início de “No Invisível” (“O Espiritismo será aquilo que os homens fizerem dele”) [Denis, 2011], percebemos a responsabilidade que nos cabe, a nós que estamos vinculados, de coração, ao movimento espírita.
                Tal conscientização motivou o estudo e a confecção do presente trabalho de análise da obra “Brasil, ...”. Esta análise visa avaliar o conteúdo da mensagem, conforme preconizado por Allan Kardec, e com isso melhorar nossa compreensão doutrinária, objetivando o aumento do discernimento doutrinário do movimento espírita para o presente e para as gerações do futuro.
                Busquemos, portanto, a fé raciocinada, com sinceridade, para que a nossa percepção doutrinária seja a mais fiel possível e para que o tríplice aspecto do Espiritismo tenha equilíbrio e apoie-se mutuamente, tanto em nossas mentes como em nossos corações, o mais próximo possível do ideal inspirado pela Falange do Espírito de Verdade e tão lucidamente captado pelo “Codificador” Allan Kardec.
                O volume da respectiva obra de Humberto de Campos pela mediunidade de Chico Xavier que foi utilizada para essa avaliação é a 33 ed. FEB 9/2010 [Campos, 2010]*.
*Campos, H. [psicografado por Francisco C. Xavier]. Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho. 33 ed. Federação Espírita Brasileira. 2010.


Capítulo 1 - O Coração do Mundo

Pág. 16 “—Helil – disse a voz suave e meiga do Mestre a um dos seus mensageiros, encarregado dos problemas sociológicos da Terra – meu coração se enche de profunda amargura, vendo a incompreensão dos homens no que se refere às lições do meu Evangelho. Por toda parte é a luta fratricida, como polvo de infinitos tentáculos, a destruir todas as esperanças...”

                 É estranho que Jesus pareça amargurado, desanimado. Os Mentores espirituais de André Luiz, por exemplo, são sempre cuidadosos ao tratar dos mais complexos problemas com pensamento positivo, buscando não criar impressões negativas nos interlocutores e nos eventuais leitores. Já é tempo dos homens se compenetrarem de que não há nenhum ser humano em condições de radiografar a alma do Divino Amigo para afirmar como Ele se sente. Entretanto, alguns podem comparar a expressão de amargura de Jesus com as palavras do Espírito de Verdade no item 5 do capítulo 6 (“O Cristo Consolador”) de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” [Kardec, 1973]: “Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que, vendo o céu, caem nos abismos do erro.”
Pág. 17. “Todavia – replicou o emissário solícito, como se desejasse desfazer a impressão dolorosa  amarga do Mestre....”

                Helil está tentando consolar Jesus? O texto dá a entender que Helil está tentando despertar uma visão mais positiva para o Mestre. Pode-se alegar, que Jesus está apenas “dando a oportunidade de Helil elaborar a discussão, o que, ele mesmo Jesus poderia fazer.  É uma hipótese razoável. De qualquer maneira, vamos prosseguir para colher mais dados para nossa análise. 
Pág. 17 “...esses movimentos, Senhor, intensificaram as relações dos povos da Terra, aproximando o Oriente e o Ocidente, para aprenderem a lição da solidariedade nessas experiências penosas; novas utilidades da vida foram descobertas; o comércio progrediu além de todas as fronteiras, reunindo as pátrias do orbe...”

Helil estava tentando explicar e justificar as Cruzadas para Jesus.
Pág. 17 “...Sobretudo, devemos considerar que os príncipes cristãos, empreendendo as iniciativas daquela natureza, guardavam a nobre intenção de velar pela paisagem deliciosa dos lugares santos”.
Em primeiro lugar, “Lugares santos” constitui expressão atípica ao Espiritismo. Entretanto, é difícil crer que os responsáveis pelas Cruzadas “...guardavam a nobre intenção...”. Como pode ser nobre uma intenção de matar um número incontável de pessoas por vários séculos para ter o controle de um local físico, ou porque queriam “...velar pela paisagem deliciosa dos lugares santos?

Pág. 19 “...Cheio de esperanças, emociona-se o coração do Mestre, contemplando a beleza do sublimado espetáculo.
                - Helil – pergunta Ele -, onde fica, nestas terras novas, o recanto planetário do qual se enxerga, no infinito, o símbolo da redenção humana?”

                Jesus, segundo o texto, teria enfatizado que “o símbolo da redenção humana” é a cruz. Trata-se de comentário simbólico vazio e sem sentido para aquele que dois mil anos atrás combateu uma série de simbolismos e tradicionalismos religiosos. Já naquela época, Jesus achava que tínhamos condição de saber que “o Reino de Deus está dentro de vós”; “nem todos aqueles que dizem: “Senhor, senhor”, serão salvos!”. Além disso, Ele parece desconhecer a posição geográfica do Brasil . É claro que podemos considerar um pergunta retórica.
                Na página 20, o texto se refere a Portugal de forma muito questionável:

Pág. 20 “...A nação mais humilde da Europa” (grifos nossos).

                Em que sentido Portugal seria a nação mais humilde da Europa? Economicamente? Militarmente? Moralmente? É bem questionável tal afirmativa. Mais à frente, o texto acabará propondo sentenças contraditórias em relação a essa suposta liderança em termos de humildade.

Pág. 21 “Foi por isso que o Brasil, onde confraternizam hoje todos os povos da Terrae onde será modelada a obra imortal do Evangelho do Cristo, muito antes do Tratado de Tordesilhas, que fincou as balizas das possessões espanholas, trazia já, em seus contornos, a forma geográfica do coração do mundo”.

                Trata-se de um comentário confuso. Ora, se analisarmos a costa oriental da América do Sul, que hoje constitui o litoral brasileiro, nós não teremos a forma aproximada de um coração. Isso só pode ser admitido com a expansão da América portuguesa para muito além dos limites portugueses estabelecidos pelo Tratado das Tordesilhas. Previamente, somente analisando a geografia da região, fica difícil visualizar “...em seus contornos, a forma geográfica do coração do mundo”, a não ser que o texto se refira a toda a América do Sul, mas o texto frisa, especificamente, “o Brasil”.

Capítulo 2 – A Pátria do Evangelho
Vejamos um diálogo entre Jesus e Helil. Diz Helil a Jesus:

Pág. 27 “—Mestre – diz ele --, graças ao vosso coração misericordioso, a terra do Evangelho florescerá agora para o mundo inteiro...”.

                 Dizer que o Brasil é a terra do Evangelho faz parecer que o Espírito Helil está menosprezando o resto do mundo. Mesmo que se possa interpretar isso como sendo uma referência a uma “missão” especial do nosso país, Helil poderia ter dito “... a terra onde esperamos seu Evangelho florescerá e servirá de exemplo para o mundo inteiro...”. Vejamos a resposta de Jesus:

Pág. 27-28 “ – Helil, afasta essas preocupações e receios inúteis. A região do Cruzeiro, onde se realizará a epopeia do meu Evangelho, estará, antes de tudo, ligada eternamente ao meu coração”.
               
                Em primeiro lugar, “a epopeia do Evangelho de Jesus” deveria ser realizada em toda a Terra. Jesus diz no Evangelho: “Ide e pregai a todas as Criaturas...” e também “...tenho ovelhas que não são desse redil...”. Em segundo lugar, todos os rincões do planetas são carinhosamente cuidados por nosso Mestre Jesus.
                Alguns leitores e/ou confrades poderiam alegar que Humberto de Campos escreve de acordo com “as tradições do mundo espiritual”, conforme o próprio autor espiritual assevera na Introdução do livro “Brasil, coração...”. Essa alegação, por si só, já faz com que devamos ter um cuidado ainda maior na leitura da respectiva obra e nas inevitáveis inferências. Entretanto, somente esse argumento não explica, e muito menos justifica, os problemas da obra. E isso fica claro se compararmos o livro “Brasil, coração...” com “Crônicas de Além-Túmulo” [Campos, 1998] e “Boa Nova” [Campos, 2004], nos quais Humberto também utiliza de algumas informações obtidas das chamadas “tradições do mundo espiritual”, mas sem cometer os vários lapsos presentes em “Brasil, coração...”.

Capítulo 3 -- Os Degredados

Pág. 33 “...Na sua branca substância, uma tinta celeste inscrevera o lema imortal: “Deus, Cristo e Caridade”.

O autor dessa inscrição seria Ismael que, de forma sútil , faz propaganda da Federação Espírita Brasileira, afinal, “Deus, Cristo e Caridade”, é o lema dessa instituiçãoSentimos falta dos Espíritos terem destacado, também, o lema do Espiritismo “Fora da Caridade Não Há Salvação”, porque esse lema é a mais pura representação do Evangelho de Jesus, que deixa muito claro que não importa a crença de uma pessoa, pois se ela pratica a caridade, ela está agindo de modo correto. Alguém pode não acreditar nem em Deus, nem no Cristo, mas se praticar a Caridade, vai estar de acordo com a Lei de Justiça, Amor e Caridade. Portanto, o lema do Espiritismo, em nossa opinião, deveria ter sido destacado aqui, como o lema de uma pátria que é dita ser “a pátria do Evangelho”.

Capítulo 4 - Os Missionários

Pág. 40 “...Temos de buscar no seio da Igreja as roupagens exteriores de nossa ação regeneradora. Infelizmente, a dolorosa situação do mundo europeu, em virtude do fanatismo religioso, tão cedo não será modificada. Somente as grandes dores realizarão a fraternidade no seio da instituição que deverá representar o pensamento do Senhor na face da Terra, a Igreja que, desviada dos seus grandes princípios pela mais terrível de todas as fatalidades históricas, foi obrigada a participar do organismo mundano e perecível dos Estados...”
                Ismael afirma que a Igreja “deverá representar o pensamento do Senhor na face da Terra”. Se isso fosse admitido no movimento espírita como verdadeiro, deveríamos desenvolver estratégias para fomentarmos uma profunda aproximação com a igreja católica e o Movimento Espírita se transformaria em um “ordem da igreja católica”.
O texto ainda afirma que a Igreja “foi obrigada a participar do organismo mundano e perecível dos Estados...” Em nossa opinião, a Igreja não “foi obrigada” a participar do organismo mundano, como afirma o texto. O que a História mostra é que os líderes religiosos cederam à tentação de compactuar com o poder humano, o que trouxe prejuízos graves para a instituição da mensagem cristã, simples e verdadeira, junto aos povos. Estes comentários não estão de acordo com o que os Espíritos da falange do Espírito de Verdade comentam sobre a Igreja Católica Apostólica Romana no livro “Obras Póstumas” [Kardec, 1998]. E não se trata de opinião pessoal, conforme podemos inferir dos seguintes trechos de duas mensagens de Obras Póstumas ("Futuro do Espiritismo" e "A Igreja") [Kardec, 1998]. Na primeira, o autor espiritual assevera "...cabe-nos retificar os erros da história e apurar a religião do Cristo, transformada, nas mãos dos padres, em comércio e em vil tráfico. Instituirá (o Espiritismo) a verdadeira religião, a religião natural, a que parte do coração e vai diretamente a Deus, sem dependência das obras da sotaina ou dos degraus do altar". Na segunda mensagem citada é comentado que "Chegou a hora em que a Igreja deve prestar contas do depósito que lhe foi confiado; do modo como praticou os ensinos do Cristo, do uso que fez da sua autoridade, da incredulidade, enfim, a que arrastou os homens". E mais à frente o autor é ainda mais incisivo quanto ao futuro da Igreja estabelecendo que "Deus a julgou e reconheceu-a imprópria, de hoje em diante, para a missão do progresso, que incumbe a toda autoridade espiritual". Ainda sobre a Igreja Católica e o futuro da humanidade o Espírito d´E... afirma que a Igreja "acha-se nesta alternativa: ou se transforma e suicida-se, ou fica estacionária e sucumbe esmagada pelo carro do progresso". Como se não bastasse, o autor ainda é mais peremptório asseverando que "a doutrina espírita é chamada a ferir de morte o papado..." e conclui seu artigo com a seguinte frase "A Igreja atira-se, por si mesma, ao precipício" [Kardec, 1998].

Pág. 40 “...Um sopro de reformas se anuncia, impetuoso, no âmago das organizações religiosas da Europa e, em breves dias, Roma conhecerá momentos muito amargos...”

Pág. 40 “... Leão X, que detém neste instante uma coroa injustificável, porquanto o Reino de Jesus ainda não é desse mundo...”
Pág. 40. “...o seu campo nos oferece para encetar essa obra de edificação da pátria do Cordeiro de Deus”.

                A expressão “Cordeiro de Deus”, a qual, na missa católica, se completa com “...que tira os pecados do mundo...”, não consiste em uma expressão espírita e não tem o menor significado dentro da doutrina espírita, já que não acreditamos na “Salvação”, como é o caso do catolicismo e de outras religiões cristãs.
                Como é possível perceber, analisando até o presente capítulo, já fica difícil aceitar o texto como obra propriamente espírita. Estaria mais para um livro meramente espiritualista ou ficcional. Entretanto, a situação fica mais grave se considerarmos que tal livro é exaltado como fundamental para o Espiritismo brasileiro e mundial.  E é justamente por amar Chico Xavier e Humberto de Campos, respeitando e amando suas verdadeiras e extraordinárias contribuições, como elevadíssimos desenvolvimentos das obras básicas de Allan Kardec, que temos dificuldade em aceitar este livro como obra relevante doutrinariamente.

p.42 “...Não constitui objeto do nosso trabalho o exame dos erros profundos da condenável instituição (referindo-se à Inquisição. )...”.

                No mesmo parágrafo desse comentário (na mesma página 42), o texto confirma isso, afirmando:

p.42. “...O que nos importa é a exaltação daqueles missionários de Deus, que afrontavam a noite das selvas para aclarar as consciências com a lição suave do Mártir do Calvário. Esses homens abnegados eram, de fato, “o sal da nova terra”.

                 Trata-se de uma contradição. O autor chama de condenável a instituição que elogia ao longo do livro. O capítulo termina com duas expressões tipicamente católicas:

p.43 “...e, com sua divina pobreza se fizeram os iniciadores da grande missão apostólica (referência à Igreja Católica Apostólica Romana) do Brasil...”

p.43. “...transformando a terra do Cruzeiro numa dourada e eterna Porciúncula.”

Existe uma cansativa exaltação da “divina pobreza” e da humildade com a inauguração da missão apostólica.

Capítulo 5 - Os Escravos

                No presente capítulo, Jesus, em diálogo com Ismael parece desconhecer que os africanos eram escravizados pelos europeus ou parece desejar que os “portugueses escravizassem com amor”. Vejamos a passagem:

                p.46 (primeira página do capítulo): “...Ismael, porém, não trazia no coração o sinal da alegria. Seus traços fisionômicos deixavam mesmo transparecer angelical amargura”     
                Nota-se, mais uma vez a utilização de expressões tipicamente católicas. E, principalmente, existe “angelical amargura” ?! Vejamos o que Jesus comenta para explicar a escravidão dos negros no Brasil que durou praticamente 4 séculos inteiros, e cujas consequências, de certa forma, perduram até hoje:

                “...Havia eu determinado que a terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões africanas; todavia, para que essa cooperação fosse efetivada sem o atrito das armas aproximei Portugal daquelas raças sofredoras, sem violências de qualquer natureza. A colaboração africana deveria, pois, verificar-se sem abalos perniciosos, no capítulo das minhas amorosas determinações...”

                Em primeiro lugar, seria mais coerente supor que Jesus dissesse “daqueles irmãos sofredores” e não “daquelas raças sofredoras”. Da maneira como o texto é apresentado, Jesus está pensando em termos de “raças”. Ora, o Espírito é imortal e pode habitar todo tipo de corpo, todo tipo de raça, em qualquer nacionalidade etc. Em segundo lugar, a “colaboração” é um eufemismo pouco adequado para escravidão. Jesus não poderia ignorar que havia escravidão no mundo e que os negros ficariam 4 séculos como escravos no Brasil. Em terceiro lugar, “...aproximei Portugal daquelas raças sofredoras, sem violências de qualquer natureza...” causa extrema estranheza. É possível que Jesus, como governador da Terra, tenha dirigido o processo de aproximação entre Portugal e os povos africanos, entretanto, não se pode acreditar que o Mestre esperasse que o processo de escravização ocorresse sem violência, ou mesmo crer que Portugal pudesse convencer estes povos a migrarem para o Brasil voluntariamente. Do século XVI ao século XIX, a par dos quatro séculos de escravidão no Brasil, portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e ingleses desfalcaram a África de uma parte muito grande da sua população (cerca de 15 milhões de indivíduos).
Estudos e pesquisas sobre a escravidão no Brasil confirmam que aqui ela apenas se expandia, eis que há muito tempo já era ativa no mundo todo, principalmente na Europa. Portugal já a praticava na África, buscando escravos abaixo do oeste africano, em águas atlânticas. Vejamos a seguinte passagem que é um comentário atribuído a nosso Mestre Jesus de Nazaré:
p.48 “...Na velha Península já não existe o povo mais pobre e mais laborioso da Europa...”.
                Na época das navegações e nos períodos em que começava a relação de Portugal com os povos africanos, Portugal não era “o povo mais pobre...da Europa”. Se Portugal fosse o povo mais pobre da Europa, não teria a mínima condição de promover o financiamento de uma série de expedições, cujos custos eram altíssimos. Aliás, se isso fosse verdade, por que os espanhóis assinaram o “Tratado de Tordesilhas”, dividindo o mundo todo em duas partes com o “o povo mais pobre...da Europa” ?! Os espanhóis poderiam ficar com tudo ou anexarem Portugal, que, sendo “o povo mais pobre...da Europa” não poderia impor quaisquer tipos de resistência econômica e, por consequência, militar, até por ser um país pequeno em extensão territorial. Os investimentos econômico, político, tecnológico, militar e estratégico eram altíssimos e foi justamente arcando com tamanho investimento que Portugal cacifou-se como uma “Potência Naval” da época. Para ilustrar vou frisar três expedições: A de Vasco da Gama (“pano de fundo” do famoso “Os Lusíadas” de Camões) para encontrar o caminho para as Índias; a de Pedro Álvares Cabral, que não se restringiu ao descobrimento do Brasil, pois uma parte das embarcações, após ficar um tempo no Brasil, seguiu viagem para a África; e a que previamente havia descoberto o chamado “Cabo das Tormentas” (hoje “Cabo da boa Esperança”). Será que “o povo mais pobre...da Europa” teria condições de financiar tudo isso?
Na Idade Média, considerando o período da escravidão no Brasil, Portugal tinha reis, Inglaterra, Espanha e França, também. Eles misturavam as nobrezas em arranjos interesseiros, Portugal/Inglaterra e França/Espanha, daí que a troca de favores ajudou Portugal e seu pendor para as viagens marítimas, tendo como aliada a Inglaterra, então considerada a “rainha dos mares”.
Por outro lado, será que o povo português poderia ser considerado realmente “...o povo...mais laborioso da Europa...”? Sem desmerecer o povo português, mas tal afirmativa poderia ser facilmente questionada por historiadores da Europa e de outros povos europeus.

Capítulo 6 – A Civilização Brasileira

                p.53 “... Villegaignon, localizado na Guanabara, edifica a sua obra; mas os padres calvinistas, que lhe acompanharam a expedição, inutilizam-lhe muitas vezes o trabalho construtivo, com as suas discussões estéreis...”.

                O livro apresenta um forte viés católico, escrevendo para espíritas, mas exaltando o Catolicismo e os católicos. Evitando críticas ao Catolicismo, “dourando a pílula” até da Inquisição. Nesse contexto, as críticas aos Protestantes soam despropositadas e exageradas. O livro também contempla algumas passagens, que poderiam ser classificadas como  pueris ou inúteis, com linguagem e contexto que não aparecem em boas obras espíritas. Vejamos um dos parágrafos da página 54:

p.54 ...Nas esferas superiores do Infinito, Ismael e suas abnegadas falanges choram sobre tão lamentáveis acontecimentos, quais o suplício imposto a João de Bolés pelos elementos de mais confiança dos maiorais da espiritualidade”.

                Em primeiro lugar, se Emmanuel ou os mentores de André Luiz encontram um Espírito chorando demais, mandariam-no prontamente ao trabalho. Em segundo lugar, “...Nas esferas superiores do Infinito...” é uma expressão  vazia. Somos informados que os Espíritos Superiores trabalham muito e que não ficam nas “esferas superiores”, ainda mais do “infinito”.  De preferência, vão para o umbral socorrer irmãos. Além disso, “dos maiorais da espiritualidade”, é uma expressão um tanto infeliz. Trata-se de uma linguagem grosseira em relação aos nossos Mentores Espirituais, soando um pouco desrespeitosa com relação aos Protetores espirituais que se esforçam para o nosso bem. Como é que “os maiorais da espiritualidade” não conseguiram impedir o suplício do João de Bolés, imposto por seus elementos de mais confiança? Ademais, há controvérsias de historiadores sobre a identidade do último francês enforcado, se era ou não João de Bolés.
                Na página 56, há uma discussão de certo modo grosseira e questionável sobre os papéis dos estados São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O parágrafo se inicia com “Ninguém pode negar...”. Algo que não pode ser negado soa como postulação dogmática.  Vejamos o texto:

p.56 “Ninguém pode negar a hegemonia da intelectualidade carioca e fluminense desde os tempos em que a cidade de São Sebastião...”.

                Obviamente, o Rio de Janeiro, sobretudo quando se tornou a capital federal, aglutinou grande massa crítica em termos de intelectualidade, mas quando o texto afirma “desde os tempos” acaba sugerindo que isso continuou ininterruptamente. Além disso, em que pese que São Paulo era bem menor do que o Rio de Janeiro, temos que considerar que Salvador, São Vicente e Recife também eram aglomerações muito importantes na época. Essa suposta “hegemonia” é, no mínimo, questionável, e, o que é pior, “Ninguém pode negar...”, constitui construção muito estranha em um livro supostamente espírita.
                O parágrafo continua com uma análise sui generis....

p.56. “...São Paulo e Minas de hoje foram as regiões escolhidas como as duas fontes poderosas que guardariam o potencial de energias orgânicas da terra, formando os primeiros índices da etnologia brasileira.  

                Trata-se de um texto prolixo e sem conteúdo. O autor sugere que São Paulo e Minas servem, no Brasil, basicamente, para gerar comida e produtos agrícolas.
               
p.56 “... Ambos (se referindo a São Paulo e Minas Gerais – nota minha) serão ainda, por muito tempo, as conchas da balança política e econômica da nacionalidade e os dínamos mais poderosos da sua produção. Obedecendo aos elevados propósitos do mundo oculto, ambos ficaram irmanados junto do cérebro do país, por indefectíveis disposições do determinismo geográfico, que os reúne para sempre”.

                A primeira parte da afirmativa não parece de todo errada, pois por muito tempo e mesmo atualmente, Minas Gerais e São Paulo exercem grande influência política e econômica no país. Quanto à geração de comida o agronegócio atual (2015) não mostra Minas Gerais ou São Paulo em posições absolutamente destacadas. Dentre outros, consideremos os Estados de Mato Grosso, Tocantins, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul.  O texto afirma ainda que São Paulo e Minas Gerais foram privilegiados por estarem  geograficamente na vizinhança do “cérebro do país” que é o Rio de Janeiro. E o papel de São Paulo e Minas é só “produção” em relação ao centro “hegemônico da intelectualidade” brasileira, que é o Rio de Janeiro. Hoje em dia, o Rio de Janeiro não constitui de modo isolado ou destacado um centro de produção intelectual e científica do país, cabendo este papel mais ao estado de São Paulo, e lentamente outros estados também se destacam. Ocorre um erro de previsão do autor, o que denota que este não seja um Espírito de grande elevação.
                Cabe uma anotação: O Rio “pensa” (questionamos respeitosamente essa “hegemonia intelectual” do Rio de Janeiro); São Paulo e Minas Gerais “geram comida e dinheiro” , mas os demais estados brasileiros parecem desprestigiados.
                O texto continua:

p.57 “...e, ainda agora, em 1932...vários outros gênios espirituais da terra brasileira se reuniam no Colégio de Piratininga, implorando a Jesus derramasse o doce bálsamo da sua humildade sobre o orgulho ferido dos valorosos piratininganos, e Ismael estende o seu lábaro de perdão e de concórdia sobre os movimentos fratricidas...!

Portanto, os paulistas, a priori, estavam totalmente errados na chamada “Revolução Constitucionalista” de 1932. Nessa análise histórica, os paulistas aparecem como os únicos responsáveis pelos problemas do Brasil e do respectivo período porque eram “orgulhosos”. O Rio de Janeiro, mesmo sendo a sede de um governo instalado por golpe de estado e que durou cerca de 15 anos ininterruptos , aparentemente, não tinha nenhuma responsabilidade, assim como os demais estados . O texto não menciona instabilidade política ou a instalação de um governo ditatorial.


CONTINUA NA PRÓXIMA PARTE (PARTE II)....