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UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Presenteísmo na Casa Espírita



Vladimir Alexei
Belo Horizonte das Minas Gerais,
 em 14 de janeiro de 2018

É comum conhecermos pessoas que militam nas casas espíritas a várias décadas de forma assídua, sem intercorrências, mantendo uma folha de serviços quase impecável.

Como força de trabalho voluntária, as casas espíritas lutam para manter seus colaboradores e se alegram quando novos colaborares chegam para somar esforços e colocar em prática esse movimento cristão de se levar conforto, esclarecimento e educação para todos que passam por lá. Entretanto, um fenômeno curioso acontece. O presenteísmo. Essa expressão é utilizada no mercado de trabalho convencional, para definir o colaborador que está de “corpo presente” no ambiente, mas, por vários motivos, o indivíduo está mentalmente distante.

Assim ocorre também na casa espírita. Por quê? Porque a relação entre as pessoas está cada vez mais superficial, sendo que, muitas vezes, é possível perceber o tarefeiro de corpo presente, mas a mente – espírito –, distante.

Por que isso ocorre? As causas variam ao infinito, entretanto, se pudéssemos classificar alguns fatores, pela observação, destacaria a falta de preparo das lideranças em administrar seu corpo de tarefeiros voluntários; comunicação deficitária da liderança entre os tarefeiros da casa espírita; distanciamento da liderança no dia-a-dia dos tarefeiros que estão sob sua tutela; dentre outros fatores que apontam para dificuldades na compaixão, falta de confiança e fraternidade.

Como ocorre? O tarefeiro, na casa espírita, abstrai-se mentalmente (presenteísmo) dos problemas de convívio do cotidiano, porque não se sente confortável, amparado e envolvido pela direção da tarefa (ou da casa espírita). Chega mais próximo ao horário de sua tarefa porque não há clima favorável para chegar mais cedo – além de, muitas vezes, não ter disponibilidade também, claro –, faz a prece inicial e vai para sua tarefa, de corpo presente. Conclui a tarefa com uma prece, despede-se e retorna ao seu lar e assim vai vivendo...

Durante muitos anos, diversas casas espíritas, assim como o movimento federativo, desenvolveram apostilas, cursos e treinamentos com o objetivo de melhorar as relações entre os tarefeiros, com direito, inclusive, a manifestações dos possíveis coordenadores espirituais da casa. Movimento válido, mas, com o passar do tempo, mostraram-se limitados por um simples e difícil motivo: a convivência se constrói no dia-a-dia e não apenas em eventos.

O que fazer para mudar esse cenário? Parece repetitivo e talvez seja, entretanto, nada é mais importante, para termos nossos tarefeiros atendidos em suas necessidades, no atendimento às necessidades dos outros, do que uma relação de confiança que permita que ele esteja de corpo e mente presentes.

Confiança se constrói por meio de gestos que sejam coerentes entre as palestras, reuniões administrativas e o trato no dia-a-dia. O papel de um líder não é o de projetar-se e sim fazer vir à tona as bases que sustentam os trabalhos: o Evangelho e a Doutrina Espírita.

Dirigente de casa espírita que não recicla seu conhecimento, que vive de passado, deve atuar em museu; dirigente que se perpetua na “presidência” ou que periodicamente muda a presidência, mas se mantem no comando, evidencia a fragilidade do próprio trabalho de preparar tarefeiros; dirigente que não muda o discurso deve ceder espaço para aqueles que estão dispostos a trabalhar para o próximo; dirigente que não prepara tarefeiros para a vida, com base naquilo que aprendeu e que pratica, terá sempre uma equipe de tarefeiros “presenteístas”; dirigente que acredita que tem que saber de tudo para liderar e ser melhor em tudo não entendeu ainda o significado de liderança (é como “pato”: nada, anda, voa, mas não faz nada direito); dirigente que não entende que seu primeiro trabalho é com os tarefeiros que estão com ele, está fadado há encontrar o presenteísmo nas atividades de sua casa.

Para evitarmos o presenteísmo na casa espírita, é importante que as lideranças, periodicamente, reforcem o papel da casa espírita para seus colaboradores. É um pronto socorro, educandário, casa de tratamento, etc. e tal, que, inclusive eles, podem e devem se beneficiar de tudo isso. Se o tarefeiro não se sentir acolhido, ele vai indicar outra casa espírita para as pessoas fazerem tratamento ou receberem orientações, que não seja a casa que ele trabalha.

Pedro foi o alicerce encarnado na sustentação dos trabalhos da Casa do Caminho porque era o primeiro a acolher, orientar, amparar e fortalecer. Exemplificou, porque aprendeu com o Mestre.

Nesse sentido, que as lideranças prestem atenção nos seus tarefeiros, acolham, orientem, confortem, instruam, criem laços que sejam duradouros para que o trabalho com o Cristo e pelo Cristo, opere transformações profundas em todos nós, de corpo e mente presentes.