PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Casa Espírita, o Vaticano e a Internet

Vladimir Alexei

Belo Horizonte, 24 de outubro de 2017.
Vladimir Alexei

O meio espírita relembrou, no último dia nove de outubro, mais um ano de um fatídico evento, envolvendo as obras de Allan Kardec e uma injusta ação da Igreja, na Espanha, em 1861, quando 300 volumes de obras espíritas foram queimadas em praça pública, como se faziam com os hereges em passado mais distante.
O que pouco se divulga é que essa manobra da Igreja foi mais uma tentativa de calar o editor Maurice Lachatre (1814-1900), então exilado na Espanha, detentor legal dos volumes queimados, exatamente por incomodar a classe dominante com suas ousadas publicações.
Ao lembrar-nos um pouco de sua história, o saudoso amigo e historiador, por vocação, Eduardo Carvalho Monteiro (1950-2005), apresenta-nos uma de suas obras, pouco conhecida no Brasil: O Crime dos Papas. Essa obra foi editada pela primeira vez em 1842-1843, em dez volumes e passou a compor um dos clássicos da literatura mundial.
Logo nas primeiras linhas de sua apresentação, Eduardo abrilhanta aquelas páginas com uma reflexão muito profunda que transcrevo para os amigos, de tão oportuna para o momento que vivemos: “Melanchton assustou-se com a depuração a ser promovida pela Reforma e indagou a Lutero: Se tiras tudo dos cristãos, o que lhes pretendes dar? Ao que Lutero respondeu sem pestanejar: Cristo”.
A Reforma, promovida por Lutero, foi um esforço ingente para devolver o Cristo ao povo, após séculos de uso, abuso e deturpações da Igreja. Os crimes cometidos pela Igreja ao longo de sua história são absurdos. Fazem com que as adulterações de obras mediúnicas editadas pela Federação Espírita Brasileira, como Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, sejam algo de somenos importância, corriqueiro até, indigno de nota ou quaisquer manifestações de repúdio. Algo comum que não precisa ser corrigido, afinal, os autores, todos, estão desencarnados e o “tempo” se encarregaria de colocar os pingos nos “is”...
Pedro, considerado a “pedra angular”, que, a partir dele, se erigia a “Igreja do Cristo”, nunca esteve em Roma, portanto, nunca poderia ser o primeiro Papa. A partir do ano 70 d.C., segundo Monteiro, a nova religião ao se transferir de Jerusalém para Roma, marca o início de suas falácias, abandonando as características principais de caridade e amor ao próximo. Foram mais de mil anos de erros cometidos em nome do poder.
Obtendo informações de como a Igreja surgiu, construída em torno de um poder transitório, como se os ensinamentos do Cristo fossem materiais, e não espirituais, e analisando, guardadas as devidas proporções, comparando com o que a Federação Espírita Brasileira fez com o Espiritismo no Brasil, vinculando-o a obras de cunho duvidoso e preservando o que o saudoso Arnaldo Rocha chamava de “cheiro de sacristia”, percebo o quanto equivocamos na divulgação do Espiritismo no Brasil. E pelo visto continuaremos...
Durante muitos anos divulgou-se o Projeto 1868, de Allan Kardec, quando ele alertava para a importância de se existir um “estabelecimento central” para estudar o Espiritismo, tratando, por analogia, a federação como sendo esse estabelecimento central e as casas espíritas seriam as células deste grande organismo.
Não é difícil ser ludibriado com esse pensamento. Quando se é neófito na divulgação do Espiritismo, a primeira coisa que você procura fazer é falar daquilo que lhe faz bem, principalmente quando você vê, pessoas de bem, difundindo a mesma ideia, como se não houvesse dúvida quanto a esse pensamento. No Brasil sempre valorizou-se mais as instituições do que o conteúdo de suas divulgações.
Assim fez a Igreja, durante milênios. Assim, até hoje, desde 1938, a federação e federadas divulgam o livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho – e vocês podem checar isso em vídeos disponíveis na internet. A maioria dos expositores, de alguma forma, conscientes ou inconscientes, pulam, literalmente, a parte em que é recomendado, pela federação, o estudo de determinada obra que não carece citar o nome. Ou seja: o espiritismo no Brasil segue sendo divulgado como a Igreja fazia com o Cristianismo, sob a tutela daqueles que se arvoram conhecedores e defensores ilibados do seu conhecimento, semeando joio em meio ao trigo. Aqueles que questionam, perdem espaço e se tornam persona non grata, obsediados e tumultuadores da “ordem” dos estudos.
Não escrevo para a federação – já fiz, sem sucesso –, escrevo para aqueles que um dia levantarão informações históricas, de instituições até então consideradas de confiança, sérias e que são difundidas como “Casa Mater do Espiritismo no Brasil” e, ao traçarem um paralelo entre os desmandos cometidos pelos homens em ambas as instituições (Igreja e federação), chegarão à conclusão que mudaram apenas os nomes dos atores e as instituições. E de fato é uma instituição séria, com frequentadores sérios e voltados para o bem. Disso, não tenho dúvida, mas reconheço-os, hoje, apenas à conta de cúmplices, que, por não ser algo que lhes fira diretamente, fingem ser algo pequeno, sem importância ou então sem condições e recursos para mudar. Já vi muito isso em passado recente: “vamos lá para dentro porque aos poucos, com exemplos diferentes, eles mudam”. Ledo engano, apesar de todo carinho e também seriedade com que trabalharam por lá. O vício humano é o mesmo: falta de habilidade para lidar com o poder, egoísmo. O Vaticano Espírita que, assim como a Igreja, pelo poder corrompido retirou o Evangelho de Jerusalém para Roma, transferiu o poder verdadeiro da casa espírita para suas dependências, fazendo-se de instituição responsável por orientar os espíritas no Brasil.
As lideranças de algumas casas espíritas assemelham-se aos padres e bispos que comandavam suas comunidades, ditando regras, influenciando costumes e, de vez em quando, falando da doutrina. Muitos são autoritários e conduzem com mão de ferro o “adestramento” dos espíritas, não aceitando pensamentos diferentes dos seus. Outros mais, foram alçados à liderança por força de um trabalho assistencial bonito, mas que preservam a mesma maneira de agir dos autoritários e manipuladores: faça o que falo, mas não faça o que faço.
A mudança de um espírito milenar, não ocorre a base de golpes da fala ou decorações cognitivas. A experiência habilita o espírito a novos desafios, sempre rumo ao seu aperfeiçoamento ou às sucessivas quedas, até fixar o aprendizado. Quem serviu à Igreja no passado, no decorrer das reencarnações se sensibilizou e aos poucos se afastou, mesmo sabendo que ainda guardam fragmentos e comportamentos vinculados aos tempos de luta na Igreja. Só se vence esse ranço quando substituído por algo novo e que será alimentado diariamente, como um desejo ardente e sincero de mudar. Algo que um líder sabe: ora estamos na condição de instrutores, ora de aprendizes. O líder que não aprende, não sabe conduzir seus liderados.
Contra o espiritismo, entretanto, espíritos que se revoltaram contra a Igreja no passado, não tem como se revoltar ou discordar. Há mais de cento e sessenta anos o espiritismo vem sendo criticado e nenhum de seus fundamentos caiu ou foram considerados ultrapassados. Pelo contrário, quanto mais passa o tempo, mais claro fica o quanto é fruto do egoísmo a publicação de obras contrárias à razão, dentro de uma instituição que se autoproclama “casa mater”. Por razões óbvias se chega a essa conclusão. Allan Kardec explica em A Gênese, que revelação, vem de revelare, que significa literalmente “sair de sob o véu” e no sentido figurado, “dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida”. E arremata, sem deixar dúvidas: “A característica essencial de qualquer revelação tem que ser a verdade.”
É por isso que, qualquer um, encarnado ou desencarnado, dotado de um mínimo de inteligência, um mínimo de compreensão, ética e bom senso, sabe que não é lógico existir uma “revelação da revelação”. Se assim fosse, uma revelação, que revelaria aquilo que não é verdade, dito pela primeira revelação, faria com que todo o conteúdo da primeira revelação (obras de Kardec) fosse um engodo, uma falácia. Não se “complementa” uma revelação: o que foi revelado não precisa de complemento porque deixou de ser desconhecido, secreto e passou a ser de domínio público.
Será que o movimento espírita, de posse de uma vasta obra, revelada pelos espíritos superiores, cometerá o mesmo erro que a Reforma de Lutero? O Espiritismo é a Chave capaz de abrir os porões em que o homem prendeu o Evangelho de Jesus. O estudo minucioso do Evangelho não é a nova cátedra e nem tão pouco objeto exclusivo para iniciados, como ocorria na Igreja. Graças às mazelas da federação, instituições espíritas, com características laicas, foram criadas no afã de afastar o ser humano do sectarismo que o prende há milênios. Infelizmente erraram também ao alijar o Evangelho da Codificação, como se Kardec, exemplo de cientista que foi, tivesse cometido erro infantil e permitido que o Evangelho fizesse parte das obras Fundamentais. A obra foi ditada pelos Espíritos Superiores.
A instituição, no século XXI que precisa ser preservada é a Casa Espírita, o real espaço central destinado ao estudo das obras Fundamentais do Espiritismo. Ali, onde os Espíritas se unem para aprender trabalhando, resgatando o Cristianismo Primitivo (anterior a 70 d.C.) ao levar caridadeamor ao próximo é que precisamos dedicar esforços e unir, os espíritas, para preservar e manter entre nós, a chama acesa dos ensinamentos de Allan Kardec – aqueles ensinamentos estruturados por ele e ditados pelos Espíritos Superiores.
Com o advento da internet, rompemos as barreiras físicas que limitavam as Casas Espíritas ao conhecimento de seus dirigentes. Na internet, pelas mãos da Rede Amigo Espírita e outros canais, todos temos a possibilidade de continuar estudando, avançando e conhecendo, inclusive, mais do que aqueles que dirigem as tarefas. É hora de auxiliá-los na preparação de nossas casas espíritas para retomarmos a caridade e o amor ao próximo.