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Paulo Neto |
“[…] quem quer esclarecer-se não deve colher ensinos de uma só fonte, porque só pelo exame e pela comparação se pode firmar um juízo.” (KARDEC, O que é o Espiritismo)
Ao longo do tempo, vínhamos observando que o nome
civil de Allan Kardec apresentava, para nossa surpresa, variações na ordem das
palavras que o compõem. Até então, não havíamos nos preocupado muito com isso,
entretanto, ao preparar a palestra Terceira Revelação – Espiritismo e Kardec,
para ser apresentada no Grupo Espírita de Fraternidade Albino Teixeira, em Belo
Horizonte, MG, voltamos a perceber essa divergência, daí resolvemos pesquisar
para, se possível, conhecer as causas disso, porquanto intrigou-nos demais tal
fato.
Estaremos apenas levantando a questão da ordem
das palavras, portanto, não tentaremos buscar as informações sobre usar “z” ao
invés de “s” em Denisard, um “p” ou dois “pp” e “i” ao invés de “y” em
Hypolite, fatos que estamos registrando para que você leitor tome ciência
disso.
Quando formos referenciar os documentos usaremos
a numeração que colocamos em cada fonte, conforme constam nas Referências
bibliográficas.
Vamos denominar de “Documentos oficiais”, aqueles
produzidos por órgão público ou particular encarregado de algum tipo de
registro e de “Documentos não oficiais” os provenientes de outras fontes,
incluindo, aí algumas produzidas pelo próprio Kardec.
Nos documentos oficiais temos:
Ano
|
Nome
|
Documento
|
Observação
|
1804
|
Denisard, Hypolite Leon Rivail
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Certidão nascimento
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(5)
encarte entre as páginas 26 e 27.
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1832
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Hippolyte Léon Denizard Rivail
|
Certidão casamento
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(5)
encarte entre as páginas 50 e 51.
|
1869
|
Léon Hippolyte Denisart Rivail
|
Certidão óbito Kardec
|
(5) Em
01.04, encarte entre as páginas 58 e 59.
|
1869
|
Denisard Hippolyte Léon Rivail
|
Decisão judicial
|
(9) Em
01.05, Archives Nationales de France.
|
1883
|
Denisard, Hippolyte Léon Rivail
|
Certidão óbito Amélie Boudet
|
(5)
encarte entre as páginas 70 e 71.
|
Então, aqui os termos “Denisard” e “Léon” não são mantidos na mesma
ordem, sendo que o primeiro a variação dá-se na metade das ocorrências. Via de
regra, dar-se-ia preferência ao que se utilizou na certidão de nascimento, caso
na França seguisse, nesse particular, o que ocorre aqui no Brasil.
Mais à frente apresentaremos as imagens constante na obra, da qual
foram tomados todas as ocorrências; porém, algo já nos chamou a atenção na
certidão de nascimento: qual é a razão da vírgula depois de Denisard?
Novamente, apenas para registro, observe que na certidão de óbito
de Kardec lê-se Denisart e não Denisard, ou seja, em lugar do “d”, apareceu-nos
um “t”.
Vejamos agora como consta o nome de Kardec nos documentos não
oficiais:
Ano
|
Nome
|
Documento
|
Observação
|
1804
|
Hippolyte Léon
Denizard Rivail
|
Registro
de batismo
|
Canuto
Abreu citado em (7), p. 96.
|
1824
|
H. L. D. Rivail (assinatura)
|
Curso prático e teórico de Aritmética,
segundo o método de Pestalozzi
|
do
próprio Kardec, em (7), p. 97.
|
1828
|
H. L. D. Rivail (assinatura)
|
Plano proposto para a
melhoria da Educação Pública
|
do próprio Kardec, em (3), p.
55.
|
1846
|
Hypolite Léon Denizard Rivail
e H. L. D. Rivail (assinatura) e
|
Testamento datado de 24 de
abril de 1846
|
do próprio Kardec, em (8), p.
264.
|
1847
|
H. L. D. Rivail (assinatura)
|
Projeto de reforma de exames
e de educandários para moças
|
do próprio Kardec, em (3), p.
119.
|
1867
|
Hippolyte Léon Denizard
Rivail
|
Nouveau Dictionnaire
Universel
|
Maurice Lachâtre citado em
(4), p. 303-308.
|
Nas três ocorrências, onde Kardec não assinou o nome todo, ele
coloca as iniciais exatamente na ordem que utilizou em seu testamento, que, por
sua vez, é quase idêntica à que consta do Novo Dicionário Universal, publicado
por Maurice Lachâtre (1814-1900), a não ser pela troca do “y” pelo
“i” e o uso de dois “pp”.
Vejamos como alguns autores das fontes, que foram por nós
utilizadas, tratam dessa questão.
Jorge Damas Martins (1957- ) e Stenio Monteiro de Barros (1945- )
se limitaram a apresentar o nome conforme consta da certidão de nascimento, da
qual apresentam um fac-símile, que mostraremos mais à frente.
Przemyslaw Grzybowski (1968- ) também menciona a diferença na
ordem e opta por aquela utilizada por Kardec, justifica dizendo que foi ela que
o Codificador assinou em suas obras.
Zêus Wantuil (1924-2011) e Francisco Thiesen (1927-1990), em nota explicativa sobre
primeiro livro de Kardec – Cours Pratique e Theórique d'Arithmétique,
d'apres la méthode de Pestalozzi, informam:
Tanto nesta quanto em todas as demais
obras pedagógicas do mesmo autor, seu nome está sempre estampado
abreviadamente, como se segue: H. L. D. Rivail, o que vem patentear, a olhos
vistos, a maneira por que ele dispunha o seu nome, ou seja: Hippolyte Léon
Denizard Rivail, fato para o qual o Dr. Canuto Abreu, ilustre espírita
brasileiro, já chamava a atenção na revista “Metapsíquica” de 1936, p. 112,
dizendo que Hippolyte aparecia ainda como prenome nos registros de batismo e de
casamento, bem assim nos documentos públicos em que ele lançava o seu nome por
extenso ou abreviado. (WANTUIL e THIESEN, vol. I, 2004, p. 96)
E mais à frente, no capítulo “Kardec e o seu nome civil”, Wantuil
e Thiessen apresentam várias considerações pelas quais justificam optar por
Hippolyte Léon Denizard Rivail, que será bem interessante ao presente estudo,
porquanto elenca a lista, objeto de sua consulta, razão pela qual transcrevemos
o seguinte trecho:
[…] importa fazer algumas observações preliminares:
a) Tanto a certidão de nascimento (sic) quanto o
registro de batismo do futuro Allan Kardec inscrevem Denizard (124) e
cremos que também assim o faz o contrato de casamento (125).
b) Por ocasião do passamento de Kardec, a
"Revue Spirite" de 1869 publicou a páginas 130 um artigo da Redação
intitulado -"Biographie de M. Allan Kardec", Aí aparece escrito, em
grifo – Léon-Hippolyte-Denizart Rivail.
Dois grandes discípulos de Kardec – Camilo
Flammarion e Léon Denis – escreveram de maneira diferente o nome do mestre
lionês.
O primeiro, no seu “Discours prononcé sur la
tombe d'Allan Kardec”, brochura editorada em 1869, apôs, em nota, ao pé da pág.
7: “Léon-Hippolyte-Denisart-Rivail”.
O segundo, no “Prefácio” da 4ª edição da obra de
Henri Sausse citada na nota (1), escreveu este período, à p. 8: Remarquons que
mon nom est enchâssé dans celui d'Allan Kardec qui s'appelait en réalité: Hippolyte,
Léon, Denisard Rivail”.
c) A velha, mas sempre consultada obra de J.-M.
Quérard – “La France Littéraire ou Dictionnaire Bibliographique (…)”, Paris,
tomo VIII (1836), p. 58, registou: “Rivail (H. L. D.)”; o tomo XII
(1859-64), p. 450, escreveu: “RIVAIL (Hippolyte-Léon Deriízart)”.
d) o famoso “Dictionnaire Universel des
Contemporains, contenant toutes les personnes notables de la France et des pays
étrangers”. de G. Vapereau, Paris, regista em sua 3ª edição (1865),
inteiramente refundida e consideravelmente aumentada, pp. 31/2, e na 4ª edição
(1870), p. 30: “Allan-Kardec (Hippolyte-Léon-Denizard Rivail,
dit)” …
O pseudônimo Allan-Kardec, conforme se lê no
Prefácio datado de 1/12/1861, só entrou para o Dicionário de Vapereau a partir
de sua 2ª edição, dada a público provavelmente entre 1861 e 1863.
A quinta edição desta obra (1880) não inscreveu o
nome Allan Kardec, mas a sexta edição (1893) traz, no pé da p. 26, a mesma
grafia que demos acima para o nome de Kardec.
e) O “Catalogue Général de la Librairie
Française”, redigido por Otto Lorenz, Livreiro, escreve no tomo I, Paris, 1867,
p. 27: “Allan Kardec, nom fantastique adopté par M. H.L.D. Rivail”;
no tomo IV, Paris, 1871, p. 240: RIVAIL (Léon Hippolyte Denisart); no
tomo V (tome premier du Catalogue de 1866-1875), Paris, 1876, p. 15: ALLAN
KARDEC. Pseudonyme de H. L. D. Rivail.
f) “Les Supercheries Littéraires dévoilécs”, par
J. M. Quérard, segunda edição, consideravelmente aumentada, publicada pelos
Srs. Guslave Brunet e Pierre Jannet, seguida (…), assim regista no tomo I,
primeira parte (1869), a pp. 266: “Allan Kardec (Hipp.-Léon Denizart RIVAIL),
ancien chef d'institution, à Paris (…)”
g) O “Nouveau Dictionnaire Universel”, por
Maurice Lachâtre, s. d.126, Paris, tomo primeiro, p. 199, regista:
“Allan Kardec (Hippolyte-Leon-Denizard Rivail)”, fazendo a seguir longa
biografia do Codificador.
h) O “Orand Dictiormaire Universel du XIXe
Siecle”, por M. Pierre Larousse, Paris, tomo nono (1873), regista: “Kardec
(Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, plus connu sous le pseudonyme d'Allan)”…
i) Faz exatamente o mesmo o “Nouveau
Larousse Illustré” (1897-1904), publicado sob a direção de Claude Augé, tom V.
j) O “Dictionnaire Biographique et
Bibliographique”, por Alfredo Dantès, Paris, 1875, p. 26, escreve: “Allan
Kardec (Hipp. Léon Denizard Rivail)…
k) O “Manuel Bibliographique des Sciences
Psychiques ou Occultcs”, por Albert L. Caillet L C., Paris, 1912, regista:
Tomo I, p. 28: “RIVAIL (Hippolyte-Léon-Denizard)”…
Tomo II, p. 487: “Hippolyte Léon Denizard
Rivail”…
Tomo III, p. 407: “RIVAIL (Hippolyte-Léon-Denizard)
dit Allan Kardec”…
l) O “Dictionnaire de Biographie Française”,
Paris, inclui no tomo segundo (Alíénor-Antlup), 1936. sob a direção de J.
Balteau (Agrégé d'Htstoire), de M. Barroux (Archiviste paléographe, directeur
honoraire des Architves de la Seine) e M. Prevost (Archiviste paléographe.
conservateur adjoint à la Bibliotheque Nationale), com o concurso de numerosos
e cultos colaboradores, inclui, como dissemos, na p. 98, o pseudônimo Allan
Kardec, escrevendo-lhe assim o nome, de acordo com o registro de nascimento: “Denizard,
Hippolyte, Léon Rivail”…
m) O “Nouveau Dictionnaire Encyclopédique
Universel Illustré”, sob a direção de Jules Trousset (3º vol.), escreve:
"KARDEC (Hippolyle-Léon-Denizard RIVAIL)”…
n) “La Grande Encyclopédie”, por uma "Société
de Savants et de Gens de Lettres" (1885-1902), escreve no volume 28: “RIVAIL.
(Hippolyte-Léon-Denizard)”…
o) O tomo II (1900), coluna 319, do "Cataloque
Général des livres imprimés de la Bibliothèque Nationale”, Paris, regista
assim o nome de Allan Kardec: Hippolyte-Léon-Denizard Rivail. Nas
colunas seguintes, o mesmo “Catálogo”, ao relacionar-lhe as obras pedagógicas,
põe sempre: H.-L.-D. Rivail.
Apenas por essa amostra, incompleta, podem os
leitores verificar haver uma quase unanimidade na maneira de se grafar a
palavra principal em estudo.
_______
(124) Henri Sausse - “Biographie d'Allan
Kardec” (Nouvelle Édition), 1910, p. 12; 4me édition (1927), pp. 18
e 19.
(125) idem, ibidem, p. 14; id. ib., p. 22.
(126) O Dicionário não traz a data de publicação,
nem no primeiro nem no segundo e último tomo. Ramiz Galvão coloca-lhe o
aparecimento em 1865-1870.
(WANTUIL e THIESEN, vol. I, 2004, p.
228-231, grifo nosso).
O escritor Jorge Rizzini (1924-2008), mantém-se firme na escolha
do nome que consta da certidão de nascimento, alegando que é esse que vale, por
originar de documento oficial. Além disso, ele tece as seguintes considerações
sobre a pesquisa de Wantuil:
Quer Zeus Wantuil que o nome civil de
Kardec seja “Hippolyte León Denizard Rivail”. Entre seus argumentos destaca o
registro de batismo e o de casamento. O primeiro nada representa, afirmemos
logo. A certidão de nascimento, sim, pois é expedida pelas autoridades do país.
Ninguém pode provar a filiação e a autenticidade de seu nome senão através da certidão
de nascimento; com ela é que se obtêm os demais documentos.
Resta a certidão de casamento, na
qual, muito estranhamente, se apoia Zeus Wantuil – estranhamente, repetimos,
porque ninguém, que no Brasil quer no estrangeiro, divulgou-a. Mas, é óbvio,
Allan Kardec não poderia casar-se no civil sem antes apresentar sua certidão de
nascimento; mesmo que se casasse na igreja teria que fazê-lo. Assim, na
certidão de casamento de Kardec há de constar, também, seu verdadeiro nome: Denizard
Hippolyte León Rivail. (RIZZINI, 1995, p. 11).
Jorge Rizzini restringiu demais a base de Zêus
Wantuil, que, como vimos logo acima, é bem mais extensa do que aquela que nos
quer fazer crer Rizzini, inclusive, nela se vê que a grande maioria das fontes
citadas por Wantuil utiliza Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Quanto à certidão de casamento, que Rizzini alega que nela deve
constar o nome da certidão de nascimento, que supõe que teria sido apresentada,
parece-nos que se deu justamente o contrário, pois observa-se que, na certidão
de casamento, consta exatamente a grafia não aceita por Rizzini; mas aquela
defendida por Wantuil, ou seja, Hippolyte Léon Denizard Rivail.
Oportuno, também, ressaltar que não é só Wantuil que cita a
certidão de casamento, podemos encontrá-la em Jorge Damas e Stenio Monteiro,
que, inclusive, apresentam um fac-símile dela (MARTINS e BARROS, 1999, encarte
entre as páginas 50 e 51).
Na revista Reformador encontramos o texto “Allan Kardec e o seu Nome Civil” (p. 24-28) de
autoria de Washington Luiz Nogueira Fernandes (?-), do qual transcreveremos e,
conforme o caso, comentar alguns trechos:
Nossa visão destes assuntos sempre foi mais
documental, e não literária.
Assim, de posse de cópias dos documentos civis e certidões, isto é, de
Fontes Primárias de informação, tudo seria esclarecido, não importando debates
linguísticos, ou o que consta em livros de terceiros, que já seriam Fontes
Secundárias, portanto, de valor menor, no tocante a esse assunto. (FERNANDES,
2000, p. 24).
Concordamos
plenamente com o autor, e reconhecemos a nossa dificuldade em não ter as fontes
originais. Entretanto, a coisa não é tão tranquila assim, pois mesmo naqueles
que dizem ter essas fontes, encontramos problemas como ver-se-á mais à
frente ao apresentarmos fac-símile da certidão de nascimento de Kardec.
Com relação ao nome civil, positivamente, o que
vale é o registro de nascimento, que justamente atribui nome e personalidade
civil a alguém. O Código Napoleônico francês (1804) somente fez breves
referências a esta matéria, sendo depois completada pelos textos das leis
intermediárias e pela jurisprudência.
Se, por acaso, o nome no registro de nascimento
fosse feito com algum erro linguístico, semântico, etc., o seu dono teria que
carregar este nome até o fim da vida, em qualquer lugar do mundo, ressalvado o
caso de alterá-lo.
Foi o Ato de Nascimento que atribuiu existência civil a Rivail, e
através do qual ele recebeu um nome e identidade. Citações em dicionários,
enciclopédias e catálogos referentes a este nome, ainda que publicados no
decorrer da vida de Rivail, valeriam apenas como um registro cultural ou
filológico, sem nenhum alcance para o registro civil. (FERNANDES, 2000, p. 25).
Está coberto de
razão, porém, devemos conhecer melhor certos detalhes que podem mudar aquilo
que julgamos ser correto. No caso da certidão de nascimento, inclusive, o
próprio autor constata isso neste texto, após Denizard há uma vírgula, e esse
pequeno sinal gráfico não poderia mudar tudo? Sobre esse detalhe, argumenta
Washington Luiz, em sua conclusão:
— Definitivamente, o verdadeiro nome, e o registro
civil de Allan Kardec é:
Denisard Hypolite Léon Rivail; observamos que
a vírgula após o prenome Denisard é um procedimento usado ainda hoje nas
certidões de nascimento francesas, que colocam, aliás, vírgula após cada termo
do nome; se ele nascesse hoje, seria registrado como Denisard, Hypolite, Léon,
Rivail, aparecendo uma vírgula após cada termo; não podemos confundir isto
com citações bibliográficas, que colocam primeiro o sobrenome e depois a
vírgula (Ex: Kardec, Allan), porque são coisas totalmente diferentes. Portanto,
para efeito de saber o nome correto de alguém, à vista de sua certidão de
nascimento francesa, pode-se ignorar a vírgula em sua certidão; (FERNANDES,
2000, p. 27, grifo nosso).
Estaria tudo certo
não fosse o que nos traz Júlio Abreu Filho (1893-1971), quanto à questão da
vírgula:
Há entre os espíritas uma certa confusão quanto
ao nome do Codificador, por falta de acomodação entre o sistema francês e o
nosso de citar o nome das pessoas. Para uns o menino em questão era Léon,
para outros Denizard e, ainda para um terceiro grupo, Hippolyte.
É que, de um modo geral, nós ignoramos que:
I – na França é comum acrescentar-se ao prenome
do menino o de um ou dois avós;
II – nas famílias nobres esse acréscimo se torna
abusivo;
III – por vezes adiciona-se ao prenome do
ascendente masculino o do padrinho;
IV – nos documentos oficiais é praxe escrever
em primeiro lugar o nome da família e depois os prenomes.
Assim, no caso vertente, o prenome é Hippolyte;
os prenomes adicionais, Léon e Denizard e o nome de família, Rivail.
Comumente se escreve Hippolyte-Léon-Denizard Rivail, enquanto que nos
documentos oficiais escrever-se-ia Rivail Hippolyte-Léon-Denizard.
E, escrevendo certo, justo é se exija a pronúncia
correta.
Perdoem-nos os espíritas a exigência: é que não
compreendemos não se saiba grafar e, menos ainda, pronunciar nome tão
respeitável e que nos é sobremaneira caro. Seria uma falta de respeito. (ABREU
FILHO, 1995, p. 9-10, grifo nosso).
Nota-se que não são concordantes as opiniões de
Washington Luiz e Júlio Abreu, quanto à questão da vírgula, embora, a deste
último ter uma aparência de mais coerente, apesar de a forma proposta não ser
exatamente a que consta da certidão de nascimento.
Um pouco atrás falamos da dificuldade dos que se
lançam a pesquisar os fatos em ter em mãos as fontes originais, o que hoje já
não se justifica, porquanto, com todos os recursos de
informática disponíveis, esses documentos já deveriam estar disponibilizados em
algum site de alguma das Instituições que dizem representar o Movimento
Espírita.
Para se ter uma boa ideia, dessa
dificuldade, vejamos, por exemplo, a certidão de nascimento de Kardec.
Conseguimos três fac-símiles; dois nas obras que utilizamos e um na Internet ([1]), aqui
estão:
Comparando-se as duas primeiras, vemos claramente
que a fonte não pode ter sido a mesma, pois há diferença entre elas,
especialmente, quanto à letra, que, embora seja muito semelhante não é a mesma.
Fora a questão do local onde consta os selos. A segunda e a terceira, também,
bem semelhantes não têm o nome de Kardec da mesma forma e disposição. Fato que
você, caro leitor, poderá pessoalmente constatar. O problema é que todos são
tidos como originais, o que nos fez lembrarmos da frase atribuída a S.
Jerônimo: “A verdade não pode existir em coisas que divergem”.
Certamente, que nem temos condições técnicas para apontar qual é a
ordem correta; porém, mesmo assim arriscaríamos em dizer que, em princípio,
seria a ordem utilizada pelo próprio Kardec no seu testamento, por razões, bem
simples, não acreditamos que escrevesse seu nome errado, porquanto, portador de
uma considerável cultura, isso, segundo pensamos, o impediria de utilizar uma
ordem diferente da real, porém… Ah!, sempre aparece um porém, o que
apresentaremos a seguir demostrará, exatamente, o contrário.
No apagar das luzes do ano de 2017, encontramos algo importante
relacionado ao assunto, pois ele vem, inapelavelmente, definir qual o
verdadeiro nome civil de Kardec que devemos utilizar.
Simoni
Privato Goidanich (1969- ), escritora e oradora espírita, publicou a obra El
legado de Allan Kardec, em espanhol, que informa ter sido resultado de
pesquisa na Biblioteca Nacional da França, nos Arquivos Nacionais da França, na
Confederação Espiritista Argentina e na Associação Espiritista Constância, de
Buenos Aires.
Em 3 de
outubro, Simoni Privato realizou a apresentação do livro na Confederação
Espiritista da Argentina, cujo vídeo se encontra disponível no site do YouTube
(9). A partir dos 39’’, ela aborda a questão do nome civil de Kardec,
informando que a divergência na forma de escrevê-lo, resultou num processo
judicial, no qual, após batida do malhete, definiu-se como: Denisard
Hippolyte Léon Rivail. Isso pode ser muito bem ser confirmado nesta imagem
apresentada pela Simoni Privato (9) na sua palestra:
Observamos
que essa forma de escrever seu nome civil é bem próxima da que consta da
Certidão de Nascimento, mas que ainda permaneceu a divergência no segundo nome,
que aqui é grafado “Hippolyte” e na certidão como “Hypolite”, portanto, estavam
“quase” certos todos os confrades que citamos que defendiam ser esse o
documento que deveria decidir a questão.
E, para
finalizar, gostaríamos de agradecer aos amigos que nos indicaram essa obra.
Parece-nos que será, oportunamente, publicada em português.
Nosso
objetivo ao tratar do tema não foi o de contestar ninguém que já tenha escrito
algo sobre esse assunto, estamos apenas juntando o resultado de várias
pesquisas realizadas, para que o leitor, ávido de conhecimento, possa tê-las
reunidas num só lugar.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Mar/2012.
(revisado dez/2017)
Referência
bibliográfica:
(1) ABREU FILHO, J. O
principiante espírita. São Paulo: Pensamento, 1995.
(2) FERNANDES, W. L. N.
Allan Kardec e o seu nome civil. in. Reformador, ano 118, nº 2052. Rio de
Janeiro: FEB, março 2000, p. 24-28.
(3) INCONTRI, D. e GRZYBOWSKI, P. (org) Kardec Educador.
Bragança Paulista, SP: Ed. Comenius, 2005.
(4) LACHÂTRE, M. Allan Kardec in. COSTA NUNES, B. H et al.
Em torno do Rivail. Bragança Paulista, SP: Lachâtre, 2004.
(5) MARTINS, J. D. e BARROS, S. M. Allan Kardec:
análise de documentos biográficos. São Paulo: Lachâtre, 1999.
(6) RIZZINI, J. Kardec, irmãs Fox e outros.
Capivari, SP: EME, 1995.
(7) WANTUIL, Z. e THIESEN, F. Allan Kardec: o educador
e o codificador, vol. I. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
(8) WANTUIL, Z. e THIESEN, F. Allan Kardec: o educador
e o codificador, vol. II. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
(9) GOIDANICH, S. P. El legado de Allan Kardec –
presentación en la Confederación Espiritista Argentina,
https://www.youtube.com/watch?v=SddznxO66zE&t=823s. Acesso em 20 dez. 2017.
Este texto foi publicado, numa versão anterior:
– Revista Espírita Histórica e Filosófica nº 28.
Porto Alegre: Maria Carolina Gurgacz, set/2012, p. 4-15.
[1] http://forcadaluz.pro.br/receitas/alan_kardec.html, artigo
intitulado Allan Kardec assinado por T. L. Castro. (em 23 ago. 2017, não
encontrado no link, porém aqui o encontramos:
http://www.autoresespiritasclassicos.com/Allan%20Kardec/1/Documentos%20Hist%C3%B3ricos%20de%20Kardec/Certid%C3%A3o%20de%20nascimento%20de%20Hippolyte%20L%C3%A9on%20Denizard%20Rivail%20(Allan%20Kardec).jpg