PAE - UM RECANTO DE PAZ

UM REDUTO DE PAZ DE "MARIA DOLORES"

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Confederação Espírita Brasileira: o resgate de uma proposta

Vladimir Alexei

Belo Horizonte, 09 de novembro de 2017
Vladimir Alexei

A primeira metade do século XX, no movimento espírita brasileiro, foi marcada por uma efervescência de publicações, divulgações e eventos. Um desses eventos, em 1949, foi o “Pacto Áureo”, expressão atribuída ao insigne Lins de Vasconcelos.
Tal evento, que é muito conhecido por aqueles que militam no movimento de unificação, ocorreu por deliberação de uma liderança com desejo de manter o controle do movimento espírita brasileiro, e, consequentemente, continuar como líder. A manutenção do poder pela FEB, poderia ser, naquele momento, a melhor decisão e a melhor alternativa. Entretanto, era crescente a insatisfação do movimento espírita brasileiro com a atuação da Federação e dos rumos tomados pelo movimento espírita brasileiro, como pode ser constatado por diversos relatos históricos.
A insatisfação era tanta que, Jorge Rizzini narra, que instituições espíritas apresentavam dificuldades de conhecimento doutrinário, e algumas funcionavam, em dias pares, com reuniões espíritas e em dias ímpares, com reuniões de umbanda. E a Federação, junto com suas federadas e demais entidades, não conseguiam esclarecer, orientar e auxiliar as casas espíritas espalhadas pelo país.
Misticismos, esoterismos e ideias pessoais, se avolumavam em detrimento da propagação das obras trazidas por Allan Kardec. Esse era, em linhas mui gerais, o que vigia no movimento espírita brasileiro, quando um grupo de lideranças, esboçou, pela primeira vez, a proposta de uma instituição alternativa para a divulgação doutrinária, com alcance nacional: a Confederação Espírita Brasileira. Existiam, àquela época, a Federação Espírita Brasileira e a Liga Espírita do Brasil, como instituições proeminentes. Encontraremos fartos e balizados artigos que explicam os antecedentes históricos do movimento espírita brasileiro, não sendo, nesse momento, nosso escopo discorrer a respeito.
E por que esse assunto ressurge?
Passados mais de 68 anos do fatídico evento, observando o desdobramento dos fatos, a desunião que impera no movimento espírita, a morosidade e distanciamento entre as instituições vinculadas à Federação Espírita Brasileira – que atua de maneira hierarquizada, como se o movimento espírita a servisse, e não o contrário - e da ausência de unificação do espiritismo no Brasil, ficar remoendo o passado ou chorando o leite derramado não trará um futuro melhor, como vislumbrado por muitos na divulgação do espiritismo. A Federação fez e faz aquilo a que se propôs e o que é possível fazer dentro dos seus limites.
Uma instituição que consiga surgir, a partir do aprendizado – erros e acertos – das instituições que a precederam, é uma alternativa que vem ganhando corpo, nos bastidores do movimento espírita brasileiro. Há carência no movimento, de uma instituição que venha para servir. Esse talvez fosse aquele momento em que citaríamos passagens evangélicas e doutrinárias, porém, optamos por não utilizar esses recursos de linguagem e manter a sobriedade do texto, porque o uso inadequado dessas expressões trouxe mais divisão do que União no movimento espírita.
Com a profunda disruptura que vivemos na atualidade, com revoluções ocorrendo na maneira de se enxergar o mundo, quando as insatisfações do passado saturaram seu processo de aprendizado, volver o olhar para a Casa Espírita é fundamental para que o movimento espírita brasileiro se mantenha fiel aos propósitos trazidos pelo Espírito da Verdade. A proposta – algo que já está além da “ideia” – da Confederação Espírita Brasileira ressurge, em um primeiro momento, sem as amarras físicas que tornam os movimentos mais lentos, permitindo que seja estruturada, nesse estágio de projeto, de maneira virtual, para torna-la real o quanto antes.
Seria apenas uma entidade virtual? Não. A proposta inicial, prevê a participação de Casas Espíritas operando como células e sendo suporte para o esclarecimento de dúvidas e o acolhimento de sugestões e propostas, mantendo o objetivo principal da Confederação Espírita Brasileira de servir. Todas as casas espíritas poderão participar. Algumas poderão funcionar como células, principalmente se tiverem um número razoável de voluntários.
E como seria constituída a Confederação Espírita Brasileira? Nos mesmos moldes de toda instituição e movimento filantrópico e religioso que a Lei brasileira determina. Sua riqueza será obtida com esforço e trabalho, por meio do desenvolvimento de valores espirituais, utilizando o mínimo necessário de recursos físicos para se manter voltada plenamente para seu desiderato: difundir o Espiritismo. Não tem o objetivo de ser uma instituição de pedras.
Quais serão suas referências doutrinárias? As obras básicas, no sentido de ser a base, o fundamento, de Allan Kardec. Para isso, a CEB faria parceria com editoras que já traduziram as obras de Kardec com o propósito de divulga-las, bem como contaria com a adesão de tradutores para esse trabalho, caso haja interesse de seus profitentes. Trabalho cooperativo e fraterno, aproveitando ao máximo todos os belos trabalhos já desenvolvidos pelo movimento espírita brasileiro. Não faria sentido ignorar os trabalhos existentes. Faz sentido dar outro fim, uma nova maneira de se valorizar tudo que existe e que torna o movimento espírita mais unido em torno das obras de Allan Kardec.
Será uma instituição que prezará a “pureza doutrinária”? Será uma instituição capaz de auxiliar-nos a estudar o Espiritismo a ponto de compreendermos o alcance dos ensinamentos dos espíritos superiores, tendo como base as obras de Allan Kardec.
E o aspecto religioso? Fora da caridade, não há salvação. Há uma infinidade de pontos a serem estudados e desenvolvidos em todas as obras produzidas por Allan Kardec, cujo sentido da religião não será exterior, materialista e sim um estado de espírito, reflexivo, de acordo com as obras de Allan Kardec. Quem estuda as obras de Kardec, compreende melhor o sentido de religião trazido pelos espíritos superiores.
E as demais obras produzidas pelo movimento espírita, serão adotadas – insisto com o objetivo de esclarecer? Assim como todo pensamento filosófico e científico, existe um núcleo central, sem o qual nada se desenvolve. No Espiritismo esse núcleo central é a obra de Allan Kardec. A partir do entendimento e do conhecimento desse núcleo central, estudos aprofundados, desenvolvidos por encarnados e desencarnados, em consonância com o núcleo central, em sua completude, serão naturalmente manuseados, estudados por seus profitentes. O estudo será livre e progressivo, sem força de estatuto, mantendo como cerne o estudo do núcleo central: as obras de Allan Kardec.
Qual será o seu papel? SERVIR as Casas Espíritas de acordo com suas necessidades. AUXILIAR as casas espíritas em suas demandas doutrinárias. Terá ainda como papel, estimular a autonomia das casas espíritas na escolha e no desenvolvimento de métodos próprios de estudo e divulgação do espiritismo, com base nas obras de Allan Kardec. Faz parte do seu escopo de trabalho entender as realidades diversas das Casas Espíritas, tratando a todas com a mesma fraternidade, mas ciente de que as demandas são diferentes. Ouvir e trabalhar para atender as demandas das Casas Espíritas. Qual o seu alcance? Inicialmente no Brasil e depois nos outros países. De que maneira? Contando com as casas espíritas que atuarão como células multiplicadoras e “pulmões” nas regiões em que funcionam. A CEB não tem o interesse de centralizar e sim, de trabalhar cada vez mais ombreada com a Casa Espírita.
A CEB teria um presidente? As melhores práticas de gestão em organizações como escolas, universidades, empresas e outras, apontam para a importância do papel de um líder. Filosoficamente o líder não precisa ser aquele que ocupa um cargo de gestão. Entretanto, para implementar as ações da CEB, inicialmente, existirá uma liderança, e esse líder será selecionado de acordo com a sua adesão ao modelo proposto, levando em consideração sua capacidade e disposição de colocar em prática esse ousado projeto.
A CEB terá recursos? Com qual dinheiro será constituída? Uma das principais atribuições da liderança será desenvolver um mecanismo de gestão, capaz de fazer com que o menor investimento possível seja feito e, manter, garantir, que a operação da CEB se limite, ao máximo, a aspectos voluntariados, como ocorre em uma casa espírita. Para que isso se torne realidade, é necessário que a Confederação Espírita Brasileira, tenha como uma das suas primeiras atividades, o desenvolvimento de um método de trabalho (como a CEB funcionará). Definido o método e o processo de trabalho, voluntários serão convidados a trabalhar e aprimorar o método. O local de trabalho será em cada espaço que o voluntário tiver, sem custo para o voluntário e nem para a CEB. Nesse projeto, não há interesse em se obter sede própria ou consolidar-se como instituição física, feito os templos de pedra que existem por aí. As casas espíritas serão sua morada.
Confederação Espírita Brasileira – CEB, é uma proposta de disrupção com o movimento espírita existente, como resgate às origens do pensamento de Allan Kardec e consequentemente de Jesus. É fruto do aprendizado daquilo que deu certo e errado no movimento espírita brasileiro. Não será uma proposta infalível e nem possui dono, tanto que é um resgate, é algo que já existia há muito tempo, mas que, por algum motivo, não havia amadurecido. Se for uma proposta desinteressada, que consiga reunir pessoas e entidades dispostas a recriar o movimento espírita brasileiro, ela será levada a diante, preferencialmente sem personalismos e nem donos da verdade, praticantes de políticas mundanas e egoístas.
Conclamamos aos espíritas para contribuírem com a construção dessa entidade, cujo fim maior será, repetimos, servir ao movimento espírita, permitindo que pensadores e pensamentos cheguem até às realidades da casa espírita como apoio, para auxiliar, contribuir e colaborar na difusão doutrinária, consolando, auxiliando e educando os corações que por lá passarem. É papel da Confederação Espírita Brasileira reconhecer e valorizar a Casa Espirita.
Que Jesus e Kardec nos auxiliem nesse projeto!
Pode demorar o tempo que for, pode ser abraçado por quem for. Que todos sejam sensibilizados para a importância de trabalharmos unidos, para que o Espiritismo tenha alcance e perenidade entre os homens.